A IMENSIDÃO DO PUERPÉRIO


Por Ana Paula Fernandes, psicóloga, doula e educadora perinatal


            Ao longo do meu trabalho como psicóloga clinica voltada para a perinatalidade, pude realizar cerca de 20 encontros grupais com mulheres puérperas, o que resultou no acolhimento e troca de experiências com aproximadamente 300 mulheres. A cada encontro pude perceber que todas nós nos encontrávamos em um ponto em comum: a (re)construção de uma identidade, agora como mães.


            Muitas eram as palavras chaves que saltavam em meio as lágrimas daquelas mulheres que passavam por essa fase tão intensa, a qual denominamos de puerpério. Palavras que se encontraram e se abraçaram ... Choro, dor, medo, angustia, acolhimento, transformação, novidade, mistério, adaptação, rotina, exaustão, solidão, escuridão, culpa. Tantas e tantas palavras entre olhares amorosos de mulheres que só precisavam de um abraço e de encorajamento para mergulhar na imensidão da nova jornada: ser mãe.


            Mas o que é puerpério? Para ajudar na construção desse conceito, utilizo a imagem de um barco a deriva no mar, representando intensamente o que é encontrar-se (ou perder-se) na imensidão do puerpério. Um misto de emoções, desafios, hormônios, reorganizações internas,externas e familiares, e por que não um luto da mulher que outrora existiu?




            É comum o puerpério ser confundido com depressão pós parto, contudo, são situações distintas que necessitam de supervisão e intervenção especifica, como a busca de profissionais especializados para compreender e auxiliar a puérpera neste período adaptativo e conturbado. É ainda mais comum, encontrar mulheres que não encontram espaço para compartilhar esses sentimentos tão ambíguos que surgem neste período que pode variar para cada mulher. Pensamentos e questionamentos como: o papel que está sendo desempenhado como cuidadora deste bebê, se o amamos como deveríamos amar, se saberemos acolhe-los em diferentes momentos da vida, e o que falar da tal culpa?


            Ah! A culpa que indiscutivelmente vem de brinde assim que o bebê nasce. Um brinde custoso e dolorido que promove sofrimento e ao mesmo tempo impulsiona a reflexão sobre o maternar. Entender como essa culpa nos foi transportada através das expectativas internas, culturais e familiares nos ajudará a passar por essa fase de maneira mais serena e consciente.


            Uma maneira de facilitar a expressão e organização emocional neste período é construir uma rede de apoio ampla. O papel do psicólogo no campo da maternidade/paternidade favorece um espaço de escuta para que a família possa nomear e atribuir significados às diversas situações desta fase do ciclo vital. Oferecer um espaço acolhedor possibilitando a expressão livre de todas as angústias e ansiedades que se está vivenciando, certamente beneficiará o desenvolvimento físico e emocional tanto do bebê quanto de toda a família. Os grupos de apoios presenciais e virtuais também tem seu papel fundamental, pois favorece a troca de experiências e a aproximação da realidade vivida por muitas famílias.




            O mantra entre todas as mulheres-mães é acolhido em forma de coro: “Acredite! Vai passar!”. E assim, acredito firmemente que aquele barco a deriva no mar, encontrará seu norte, ajustará sua rota e seguirá, com muitas fases de tempestades e calmarias, com altos e baixos, e, sobretudo com muito aprendizado, crescimento e amor!



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